Pular para o conteúdo
Todos os artigos

11 min de leitura

Atualizado em

Concordância Verbal: Os casos especiais que as bancas amam (Verbo Haver, Fazer, Partícula Se)

Alt Text: Ilustração 3D de um estudante feliz compreendendo as regras de concordância verbal dos verbos haver, fazer e da partícula se.

Você já teve aquela sensação de ler uma frase na prova, achar que ela soa estranha, marcar como "errada" e depois descobrir que o gabarito dizia que estava certa? Ou pior: aquela frase que soa macia aos ouvidos, como uma música, mas que esconde um erro gramatical fatal?

Se a resposta for sim, bem-vindo ao clube. A concordância verbal é, sem dúvida, um dos pilares da Língua Portuguesa que mais derruba candidatos preparados. O problema não é a regra básica (o verbo concorda com o sujeito). O problema real — e é aqui que as bancas armam suas arapucas — são as exceções, os casos especiais e aquelas "pegadinhas" que desafiam a nossa intuição auditiva.

Neste artigo, vamos mergulhar fundo, muito fundo, no "trio de ouro" das bancas examinadoras: o verbo Haver, o verbo Fazer e a temida Partícula Se. Esqueça a decoreba vazia. Vamos entender a lógica por trás dessas regras para que você nunca mais hesite diante de uma questão de certo ou errado. Prepare seu café, ajuste a cadeira e vamos desmistificar esses vilões.

O Mito da Impessoalidade: Quando o sujeito desaparece

Para dominar a concordância, o primeiro passo é parar de procurar o sujeito onde ele não existe. A nossa intuição tenta achar um "culpado" para a ação do verbo, mas, em alguns casos, a gramática determina que a oração é sem sujeito. E se não tem sujeito, com quem o verbo vai concordar? Com ninguém. Ele fica "travado" na terceira pessoa do singular.

É aqui que entram os nossos dois primeiros protagonistas: Haver e Fazer.

O Verbo Haver: O camaleão da gramática

O verbo haver é o campeão absoluto de erros em redações e questões objetivas. Por que ele é tão difícil? Porque ele tem "dupla personalidade". Ora ele é impessoal, ora ele tem sujeito. Saber diferenciar isso é a chave da aprovação.

1. O Haver com sentido de "Existir", "Acontecer" ou "Ocorrer"

Esta é a regra de ouro. Sempre que você puder trocar o verbo haver por existir, acontecer ou ocorrer, ele se torna impessoal. Isso significa que ele não tem plural. Jamais.

Imagine a frase: "Havia muitos candidatos na sala". Muitos candidatos "existiam". Logo, o havia fica no singular. Se você escrever "haviam muitos candidatos", acabou de cometer um erro grave. O verbo haver, aqui, não olha para "muitos candidatos". Ele reina sozinho, soberano, no singular.

• Correto: Houve problemas na prova. (Ocorreram problemas).

• Errado: Houveram problemas na prova.

2. A Armadilha da Locução Verbal

Aqui é onde o nível sobe e onde a maioria cai. Quando o verbo haver (com sentido de existir) funciona como o verbo principal de uma locução verbal (aquela estrutura com dois verbos juntos), ele é "contagioso". Ele passa a sua impessoalidade para o verbo auxiliar.

Pense na frase: "Deve haver soluções para o país". O verbo principal é haver (sentido de existir). Logo, ele é impessoal. O verbo auxiliar (deve) é obrigado a concordar com essa impessoalidade. Portanto, ele também fica no singular.

• Errado: Devem haver soluções.

• Correto: Deve haver soluções.

• Errado: Podem haver impressões digitais.

• Correto: Pode haver impressões digitais.

Perceba a maldade: se trocarmos haver por existir, tudo muda! O verbo existir tem sujeito e concorda com ele.

• Com Haver: Deve haver soluções.

• Com Existir: Devem existir soluções.

Essa troca é a pegadinha clássica. O examinador pede para você substituir "haver" por "existir" e manter a estrutura. Se você não ajustar o auxiliar para o plural, você erra. Lembre-se: Haver (existir) contamina o auxiliar com o singular. Existir obriga o auxiliar a ir para o plural.

3. Haver indicando Tempo Transcorrido

Quando indica tempo passado, o haver também é impessoal.

• "Há anos não vejo meu nome na lista de aprovados."

• "Havia meses que não chovia."

Nada de "hão anos" ou "haviam meses". É sempre singular.

Alt Text: Balança comparando o peso gramatical: o verbo existir flexiona (pesado), enquanto o verbo haver impessoal flutua no singular (leve).

O Verbo Fazer: O tempo não perdoa (e nem vai para o plural)

O verbo fazer segue uma lógica muito parecida com a do haver quando se trata de tempo decorrido ou fenômenos da natureza.

Você já ouviu alguém dizer "Fazem cinco anos que moro aqui"? Dói o ouvido, não é? Mas é um erro extremamente comum na linguagem oral. Na norma culta, exigida na sua prova, o verbo fazer indicando tempo é impessoal.

• Errado: Fazem dez dias.

• Correto: Faz dez dias.

• Errado: Vão fazer duas semanas.

• Correto: Vai fazer duas semanas.

Note que, assim como no verbo haver, se o fazer estiver em uma locução verbal indicando tempo, ele "contamina" o auxiliar, deixando tudo no singular. "Deve fazer cinco anos", e nunca "Devem fazer cinco anos".

Dica de Mestre: Nunca use o verbo "TER" para substituir "HAVER" ou "FAZER" em contextos formais de tempo ou existência (ex: "Tem gente aqui"). Na fala é aceito, na prova é erro.

--------------------------------------------------------------------------------

A Partícula "SE": O divisor de águas

Se o verbo haver é o rei das pegadinhas, a partícula se é a rainha da confusão. Ela aparece em todo lugar e com funções diferentes. Para concordância verbal, precisamos focar em duas funções críticas: a Partícula Apassivadora (PA) e o Índice de Indeterminação do Sujeito (IIS).

Confundir um com o outro é fatal, pois um exige plural e o outro proíbe. Como diferenciá-los? Olhando para a transitividade do verbo. Como dizem os especialistas: "Diga-me com quem o SE anda, que lhe direi quem o SE é".

1. Partícula Apassivadora (PA): Onde o plural é bem-vindo

Quando o "se" está ligado a um Verbo Transitivo Direto (VTD) ou Transitivo Direto e Indireto (VTDI), ele funciona como uma partícula apassivadora. Isso significa que a frase está na Voz Passiva Sintética.

O segredo aqui é: tem sujeito! E se tem sujeito, o verbo tem que concordar com ele. O sujeito, neste caso, é a "coisa" que sofre a ação (sujeito paciente).

Analise comigo: "Vende-se casa." Quem vende, vende algo (VTD). "Casa" é o sujeito paciente. Casa é vendida. Singular com singular.

Agora, e se fossem "casas"? "Vendem-se casas." Por que plural? Porque "Casas são vendidas". O verbo concorda com o sujeito paciente.

O Pulo do Gato: Tente transformar a frase para a voz passiva analítica (aquela com o verbo ser). Se der certo, o verbo com "se" deve variar.

• Aluga-se apartamento. (Apartamento é alugado -> OK).

• Alugam-se apartamentos. (Apartamentos são alugados -> OK).

• Construíram-se novos prédios. (Novos prédios foram construídos -> OK).

Se a frase na voz passiva analítica fizer sentido, você está diante de uma Partícula Apassivadora e a concordância é obrigatória.

2. Índice de Indeterminação do Sujeito (IIS): O cadeado do singular

Agora, o cenário muda. Se o "se" estiver ligado a um:

• Verbo Transitivo Indireto (VTI) (aquele que pede preposição);

• Verbo Intransitivo (VI) (que não pede complemento);

• Verbo de Ligação (VL);

Então, não há sujeito paciente. O sujeito é indeterminado. E a regra para sujeito indeterminado com "se" é clara: o verbo deve ficar obrigatoriamente na 3ª pessoa do singular. É como se o "se" fosse um cadeado que trava o verbo no singular.

Exemplos clássicos:

• "Precisa-se de funcionários."

◦ Quem precisa, precisa de algo (VTI). A preposição "de" impede que "funcionários" seja o sujeito. Logo, o verbo não vai para o plural. Jamais escreva "Precisam-se".

• "Trata-se de casos graves."

◦ O verbo tratar (no sentido de referir-se) é VTI. O sujeito é indeterminado. Fica no singular, mesmo que "casos graves" esteja no plural.

• "Vive-se bem aqui." (Verbo Intransitivo + Se = Singular).

Atenção à Preposição: Viu uma preposição (de, em, a, com) logo depois do verbo com "se"? É um sinal de alerta gigante piscando em neon: "MANTENHA O SINGULAR!".

Alt Text: Diagrama explicando visualmente a diferença entre partícula apassivadora que aceita plural e índice de indeterminação que trava o verbo no singular.

Resumo da Ópera do "SE":

1. Olhe para o verbo.

2. Ele pede preposição obrigatória?

◦ SIM (VTI): Singular sempre. (Ex: Acredita-se em milagres).

◦ NÃO (VTD): Concorda com a "coisa". (Ex: Não se pouparam esforços).

--------------------------------------------------------------------------------

Casos Especiais: O refinamento para quem quer gabaritar

Agora que você já domina os gigantes, vamos aos detalhes que separam os aprovados dos demais.

1. A Expressão "Mais de um"

A lógica matemática diz que "mais de um" é plural (1,1 já é mais que 1). Mas a lógica gramatical é diferente. Com a expressão "mais de um", o verbo concorda com o numeral "um". Ou seja, fica no singular.

• "Mais de um candidato errou a questão.".

A Exceção da Exceção: O verbo vai para o plural em dois casos:

1. Se a expressão "mais de um" se repetir. ("Mais de um professor, mais de um aluno reclamaram").

2. Se o verbo indicar reciprocidade (ação mútua). ("Mais de um político se cumprimentaram" - um cumprimentou o outro).

2. Porcentagens: O Jogo Duplo

Quando o sujeito é uma porcentagem, você geralmente tem duas opções de concordância, e as bancas adoram perguntar se "a outra forma" também estaria correta.

O verbo pode concordar com o número ou com o especificador (o termo que vem depois).

• "20% da turma faltou." (Concorda com "da turma").

• "20% da turma faltaram." (Concorda com "20%").

Ambas estão corretas!.

Porém, cuidado: se o número vier determinado por artigo ou pronome, a concordância segue o determinante.

• "Os 20% da turma faltaram." (Aqui, o artigo "Os" força o plural).

3. O Verbo Ser: O "Maria vai com as outras"

O verbo ser é extremamente flexível. Ele tende a concordar com o predicativo (a característica) se isso soar melhor (eufonia) ou se o predicativo for plural e o sujeito for uma "coisa" (não pessoa).

• "Tudo são flores." (Concorda com flores).

• "O problema são as dívidas." (Concorda com dívidas).

Mas se o sujeito for pessoa, a pessoa prevalece:

• "O problema sou eu." (E não "O problema é eu").

4. Nomes Próprios no Plural

Estados Unidos, Minas Gerais, Alpes... O verbo vai para o plural ou fica no singular? Depende do artigo!

• Sem artigo: Verbo no singular. "Minas Gerais produz leite". "Alagoas impressiona."

• Com artigo: Verbo no plural. "Os Estados Unidos investem em tecnologia". "Os Andes são majestosos."

--------------------------------------------------------------------------------

Estratégia de Guerra: Como resolver questões na prova

Agora que você tem a teoria, precisa de uma estratégia prática para a hora H. Quando você abrir o caderno de questões e der de cara com aquele texto enorme cheio de lacunas, siga este roteiro:

1. Identifique o Verbo: Circule o verbo da oração.

2. Pergunte "Quem?": Faça a pergunta "Quem é que [verbo]?" ou "O que é que [verbo]?". A resposta será o sujeito.

3. Verifique a Distância: Muitas vezes, a banca coloca o sujeito lá no início e o verbo três linhas depois, cheio de vírgulas e explicações no meio, só para você esquecer quem é o sujeito. Ignore o que está entre vírgulas e conecte o sujeito direto ao verbo.

4. Teste do "Se": Viu um "se"? Pare tudo. Procure a preposição. Tem preposição? Trava no singular. Não tem? Procura o plural.

5. Radar do "Haver": Viu o verbo haver? Tente trocar por "existir". Se der sentido, garanta que ele esteja no singular, mesmo que a frase esteja cheia de plurais. E cuidado redobrado se ele estiver acompanhado de um auxiliar (pode, deve, vai) — o auxiliar também fica no singular!

Um Exemplo Real Comentado

Imagine a frase: "Nos relatórios, devem haver erros que não foram vistos."

Vamos analisar como um "sniper" de questões:

1. Locução verbal: "devem haver".

2. Verbo principal: "haver". Sentido de existir? Sim.

3. Regra: Haver (existir) é impessoal e contamina o auxiliar.

4. Diagnóstico: "Devem" está errado. Deveria ser "Deve".

5. Correção: "Nos relatórios, deve haver erros...".

E a segunda parte: "...que não foram vistos".

1. Sujeito: "que" (pronome relativo).

2. Quem esse "que" retoma? "Erros".

3. "Erros" é plural.

4. Concordância: "foram vistos" (plural). Correto!

Conclusão

A concordância verbal não é um bicho de sete cabeças, mas é um jogo de atenção aos detalhes. As bancas sabem que, na linguagem coloquial do dia a dia, nós "escorregamos" no haver, no fazer e no se. Elas apostam que você vai usar o ouvido e não a regra.

Ao estudar, não confie apenas na sonoridade. Force seu cérebro a fazer a análise sintática rápida: onde está o sujeito? É impessoal? Tem preposição? Com esse treino mental, o que antes parecia uma armadilha se tornará o seu ponto forte, garantindo aqueles preciosos pontos que a maioria dos candidatos vai perder. Continue praticando, pois a consistência é a mãe da aprovação.

Se você quer levar seus estudos para um nível profissional, com ferramentas que organizam sua rotina e potencializam seu aprendizado, convido você a conhecer o nosso site em https://volitivo.com.br/. Lá você encontra recursos incríveis para facilitar sua jornada. E o melhor: para testar tudo o que aprendeu hoje e resolver milhares de questões grátis, acesse agora mesmo https://volitivo.com.br/questions. Vamos juntos rumo à aprovação!


Foto de Edson Braga

Escrito por

Edson Braga

Professor e engenheiro com formação em licenciatura desde 2010. Dedico-me à educação, atuando como tutor e professor universitário, e acompanhando alunos em concursos públicos desde 2017. Meu compromisso é com a excelência educacional e o sucesso dos meus estudantes.