O determinismo em O Cortiço é a aplicação da tese naturalista de que o comportamento humano é moldado pelo meio social, pela hereditariedade (raça) e pelo momento histórico. Na obra, Aluísio Azevedo demonstra como o ambiente degradante do cortiço anula o livre-arbítrio, animalizando os personagens e forçando-os a agir por instinto.

Ilustração representando o cenário caótico e aglomerado de um cortiço no século XIX, refletindo o determinismo do meio.
Para dominar a literatura brasileira focada no ENEM e vestibulares, é imperativo compreender as correntes filosóficas que embasam os movimentos literários. O determinismo é uma doutrina filosófica que postula que todos os acontecimentos, inclusive as vontades e escolhas humanas, são causados por fatos anteriores. Na literatura, especialmente na transição do século XIX, essa ideia foi apropriada para explicar a degradação moral e social.
Segundo o filósofo e crítico literário francês Hippolyte Taine, o indivíduo é um produto inevitável de três forças:
O meio (ambiente): O local onde a pessoa vive, o clima, a geografia e a estrutura social.
A raça (biologia): A carga genética, os instintos básicos e a hereditariedade.
O momento (contexto histórico): As circunstâncias políticas e econômicas da época.
Exemplos clássicos dessa aplicação literária são encontrados em obras que retratam a vida das classes marginalizadas, onde a miséria e a aglomeração ditam o comportamento violento ou promíscuo dos indivíduos. É exatamente essa a premissa que diferencia o movimento naturalista de seus antecessores, algo que fica claro ao estudar as diferenças entre Realismo e Naturalismo.
O Meio: O ambiente insalubre que corrompe a moral (ex: Jerônimo).
A Raça: A carga genética e os instintos biológicos (zoomorfização).
O Momento: O contexto histórico e econômico de exploração (João Romão).
A pergunta sobre quando surgiu o determinismo nos leva à segunda metade do século XIX, um período marcado pela efervescência científica na Europa. O surgimento dessa corrente está intimamente ligado ao Positivismo de Auguste Comte, ao Evolucionismo de Charles Darwin e ao próprio determinismo de Taine.
Essas teorias científicas atravessaram o Atlântico e chegaram ao Brasil em um momento de profundas transformações: a transição do trabalho escravo para o assalariado, o início da imigração europeia e o inchaço populacional desordenado da cidade do Rio de Janeiro.
O Naturalismo literário adotou essas teorias como um "método científico" de escrita. O romancista naturalista atua como um cientista em um laboratório, colocando seus personagens em um ambiente específico (o tubo de ensaio) para observar e relatar como eles reagem aos estímulos externos. Para aprofundar a visão sobre a obra máxima desse período, a análise de O Cortiço de Aluísio Azevedo revela como o autor utilizou o Rio de Janeiro de 1890 como seu grande laboratório social.
A genialidade de Aluísio Azevedo reside em transformar o espaço físico no verdadeiro protagonista da narrativa. O determinismo do meio em O Cortiço é implacável. O ambiente não é apenas um cenário passivo; ele respira, cresce, consome e transforma todos que cruzam seus portões.
Logo nos primeiros capítulos, o narrador descreve o despertar do cortiço não como o acordar de várias pessoas, mas como o espreguiçar de um único organismo gigantesco. O ambiente coletivo anula a individualidade. A promiscuidade, o calor tropical, a falta de saneamento e a convivência forçada entre diferentes classes e etnias criam um caldeirão que derrete a moralidade burguesa.
O caso mais emblemático do determinismo do meio é o do personagem Jerônimo. Ele chega ao cortiço como um imigrante português trabalhador, metódico, fiel à esposa (Piedade) e de moral inabalável. Contudo, o ambiente tropical, o calor, a cachaça, o som do violão e a sensualidade de Rita Baiana operam uma transformação química e biológica no personagem. Jerônimo abandona seus costumes europeus, torna-se preguiçoso, infiel e violento. Ele não escolhe mudar; o meio o obriga a isso.
Além do meio, a obra explora o determinismo biológico e o Darwinismo Social — a ideia de que apenas os mais fortes e adaptados sobrevivem. João Romão, o dono do cortiço, é a personificação da exploração capitalista selvagem. Ele não possui escrúpulos, explorando a escravizada Bertoleza até a última gota de suor para acumular capital. O triunfo financeiro e social de João Romão, em detrimento da destruição de Bertoleza, simboliza a seleção natural aplicada às relações sociais e econômicas do Brasil oitocentista.
Um dos recursos estilísticos mais cobrados em provas quando o assunto é o Naturalismo é a zoomorfização (ou animalização). A relação entre determinismo e a zoomorfização é direta: se o homem é apenas um animal guiado por instintos biológicos e condicionado pelo meio, suas atitudes se assemelham às de bestas irracionais.
Aluísio Azevedo utiliza frequentemente verbos e adjetivos ligados ao mundo animal para descrever os moradores do cortiço. Eles não comem, devoram; não se reproduzem por amor, mas entram em "cio"; não habitam, mas "formigam". Essa redução do ser humano à sua condição biológica mais primitiva serve para provar a tese determinista de que, sob certas condições de pressão e miséria, a razão desaparece e o instinto de sobrevivência e reprodução toma o controle. O domínio dessas figuras de linguagem que mais caem é vital para a interpretação textual nos exames.
Para facilitar a memorização e a revisão estruturada, observe como o determinismo atua sobre os principais personagens da obra:
Personagem | Condição Inicial | Fator Determinista Principal | Destino / Transformação |
Jerônimo | Português, trabalhador, fiel, moralista. | Determinismo do Meio (calor, cultura tropical). | "Abrasileira-se", torna-se adúltero, preguiçoso e assassino. |
João Romão | Imigrante pobre, ambicioso. | Darwinismo Social (sobrevivência do mais apto). | Enriquece através da exploração extrema, ascende socialmente. |
Bertoleza | Escravizada, trabalhadora, submissa. | Determinismo Racial e Social. | Explorada até a exaustão; comete suicídio ao ser traída. |
Piedade | Portuguesa, esposa devotada, recatada. | Determinismo do Meio (abandono, miséria). | Entrega-se ao alcoolismo e à degradação moral. |
Rita Baiana | Brasileira, sensual, livre. | Determinismo Biológico (instinto, sedução). | Atua como a personificação do meio tropical que corrompe Jerônimo. |

Representação artística da transformação de um personagem sob a influência do meio, característica do determinismo em O Cortiço.
Candidatos frequentemente perdem pontos em questões objetivas e discursivas por cometerem deslizes conceituais sobre a estética naturalista. Fique atento aos seguintes erros:
Confundir Realismo com Naturalismo: Embora contemporâneos, o Realismo (de Machado de Assis) foca na análise psicológica e na crítica à burguesia. O Naturalismo (de Aluísio Azevedo) foca na patologia social, nas classes baixas e no determinismo biológico.
Atribuir livre-arbítrio aos personagens: Em "O Cortiço", as escolhas não são livres. Afirmar em uma redação ou questão que Jerônimo "escolheu" trair a esposa contraria a tese central do livro. Ele foi determinado pelo meio a agir assim.
Ignorar a crítica social: O determinismo na obra não serve apenas para rebaixar os personagens, mas para denunciar as péssimas condições de habitação e a exploração do proletariado e dos escravizados no Brasil do final do século XIX.
O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e os vestibulares tradicionais (como FUVEST e UNICAMP) costumam cobrar esse tema exigindo que o aluno identifique marcas textuais do determinismo. As questões geralmente apresentam um trecho da obra e pedem para o candidato assinalar a alternativa que demonstra a influência do meio sobre o indivíduo ou a animalização do comportamento humano.
Para acertar essas questões, é preciso aplicar uma boa técnica de rastreamento e interpretação de texto, buscando no fragmento palavras que remetam a instintos, reações fisiológicas, calor, aglomeração e perda de racionalidade.
A leitura de "O Cortiço" sob a ótica do determinismo revela a intenção de Aluísio Azevedo de mapear as mazelas sociais do Brasil em formação. A obra prova sua relevância histórica e literária ao demonstrar como a miséria, a exploração desenfreada e o ambiente degradante são capazes de aniquilar a dignidade humana. Dominar os conceitos de determinismo do meio, biológico e a zoomorfização garante ao estudante uma base sólida não apenas para as provas de Literatura, mas também para repertórios socioculturais em redações que abordem desigualdade social e habitação.
Para testar seus conhecimentos sobre este e outros temas recorrentes, acesse o banco de questões da Volitivo e otimize sua preparação.
O que é determinismo e exemplos? O determinismo é uma teoria filosófica que afirma que as ações humanas são causadas por fatores externos e biológicos, anulando o livre-arbítrio. Um exemplo clássico na literatura é o personagem Jerônimo, de "O Cortiço", que muda seu comportamento metódico europeu para um estilo de vida instintivo e violento devido à influência do clima tropical e do ambiente do cortiço.
Quando surgiu o determinismo? O determinismo, aplicado às ciências sociais e à literatura, ganhou força na segunda metade do século XIX. Ele foi impulsionado por teorias científicas da época, como o Positivismo de Auguste Comte, o Evolucionismo de Darwin e as teses de Hippolyte Taine sobre raça, meio e momento histórico.
Como se dá o determinismo do meio em O Cortiço? O determinismo do meio ocorre através da influência direta do espaço físico e social sobre os moradores. O cortiço é retratado como um ambiente insalubre, quente e aglomerado que corrompe a moralidade de seus habitantes, forçando-os a agir por instintos de sobrevivência, promiscuidade e violência, independentemente de suas origens ou intenções iniciais.
Qual a relação entre determinismo e a zoomorfização? A zoomorfização é a consequência literária do determinismo biológico. Como o Naturalismo defende que o homem é apenas um animal sujeito às leis da natureza e do ambiente, os autores utilizam a zoomorfização (atribuir características animais a humanos) para ilustrar personagens agindo por instinto, desejo sexual ou fome, desprovidos de racionalidade.
Este artigo foi estruturado e validado pela equipe multidisciplinar e pedagógica da Volitivo. A análise literária aqui apresentada segue as diretrizes curriculares exigidas pelo MEC para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e os principais editais de vestibulares do país. O foco da curadoria é garantir a precisão dos conceitos historiográficos e literários, como o Naturalismo, o Positivismo e o Darwinismo Social, assegurando que o estudante tenha acesso a um material de alto rigor técnico, focado na interpretação de texto e na resolução eficiente de questões objetivas.