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23/09/2025 • 9 min de leitura
Atualizado em 11/04/2026

Romantismo no Brasil e em Portugal

  • Alt Text: Pintura clássica a óleo representando a essência do Romantismo no Brasil e em Portugal, unindo elementos de paisagens medievais europeias e a rica natureza tropical brasileira.

A transição para a era moderna da literatura foi marcada por um movimento revolucionário que trocou a rigidez da razão pela força incontrolável da emoção. O Romantismo, surgido na Europa no final do século XVIII, não foi apenas uma escola literária, mas uma nova forma de enxergar o mundo, a pátria e os próprios sentimentos. Neste artigo detalhado, vamos explorar como essa corrente moldou a cultura, a identidade e a história literária em terras lusitanas e brasileiras, respondendo a todas as suas dúvidas sobre o tema.

O Que Foi o Romantismo Literário?

O Romantismo foi um movimento artístico e cultural que ganhou força ao ser financiado por uma classe burguesa em ascensão, que desejava histórias mais acessíveis, emocionantes e repletas de ação do que as antigas obras clássicas. Em vez de focar na objetividade, os escritores passaram a olhar para o seu próprio interior, criando narrativas publicadas em folhetins que prendiam a atenção do público a cada capítulo.

Características Principais e Atributos

Para entender profundamente o movimento, é preciso conhecer seus atributos primordiais. O subjetivismo e o egocentrismo foram os pilares da época, onde a visão de mundo do autor transformava a realidade em algo idealizado e grandioso. O sentimentalismo extremo ditava as regras, permitindo que os impulsos guiassem as ações das personagens.

Havia também um forte escapismo psicológico. Como os românticos não aceitavam a realidade nua e crua, eles fugiam para o passado histórico, para a religiosidade ou até mesmo para o culto ao fantástico e ao sobrenatural. Em termos estéticos, o movimento também abraçou a fusão entre o grotesco e o sublime, mostrando que o ser humano era composto tanto de luz quanto de sombras.

As Gerações do Romantismo em Portugal

Em Portugal, o Romantismo começou oficialmente em 1825, embalado pelo turbulento contexto das invasões de Napoleão, da fuga da família real para o Brasil e de uma guerra civil entre liberais e absolutistas. Essa era romântica portuguesa durou cerca de quarenta anos e se dividiu em três gerações bem delineadas.

Primeira Geração: A Raiz Histórica e o Nacionalismo

A primeira geração foi a responsável por introduzir os ideais românticos no país, valorizando o medievalismo e o nacionalismo literário. O grande marco inicial foi a publicação do poema Camões, de Almeida Garrett, que resgatou o herói nacional e exaltou o passado glorioso de Portugal. Garrett também foi o fundador do teatro nacional português de sua época, distanciando-se do teatro de corte para focar em dramas históricos, como a peça Frei Luís de Sousa.

Outro nome colossal foi Alexandre Herculano, ativista e criador do romance histórico no país. Sua obra-prima, Eurico, o presbítero, conta a saga de um amor impossível durante a invasão árabe na Península Ibérica. Na narrativa, o herói se disfarça de Cavaleiro Negro para salvar sua amada Hermengarda, mas o amor de ambos é impedido pelo voto de celibato, uma crítica ferrenha que Herculano fazia às regras clericais de sua época.

Segunda Geração: O Ultrarromantismo e o Exagero

Na segunda geração, o Romantismo em Portugal atingiu o seu pico de sentimentalismo, desequilíbrio e morbidez, fase conhecida como Ultrarromantismo. Os poetas e romancistas deste período cultuavam o tédio, o desespero e a melancolia, frequentemente flertando com a morte.

Camilo Castelo Branco foi o mestre incontestável desse período e o primeiro autor português a viver exclusivamente da venda de seus livros. Em sua novela Amor de Perdição, ele narra a vida de Simão e Teresa, jovens cujas famílias rivais impedem o romance. Entre prisões, idas para o convento e degredos para a Índia, a história culmina na morte trágica dos protagonistas, um fim típico do exagero emocional romântico. Na poesia, Soares de Passos aprofundou o lirismo fúnebre com obras de grande exaltação da solidão.

Terceira Geração e a Questão Coimbrã

O terceiro momento anunciou a transição para o Realismo. Autores como Júlio Dinis passaram a descrever ambientes rurais e crônicas de aldeia de maneira mais equilibrada e menos trágica, oferecendo aos leitores os desejados finais felizes.

O fim da supremacia romântica ocorreu a partir de 1865, com a famosa Questão Coimbrã. Um grupo de jovens estudantes universitários, portadores de novas ideias europeias focadas na denúncia social, chocou-se contra a velha guarda romântica, apelidada criticamente de "Escola do Elogio Mútuo". A disputa começou quando António Feliciano de Castilho criticou os jovens por falta de "bom senso e bom gosto". Em resposta, Antero de Quental publicou uma carta aberta demolidora com o mesmo título, defendendo a liberdade do pensamento e a necessidade de uma literatura que combatesse a miséria social em vez de apenas agradar à elite. O embate literário chegou a tal ponto que resultou em um duelo real de espadas entre Antero de Quental e Ramalho Ortigão.

  • Alt Text: Ilustração de jovens escritores do século XIX em um debate tenso, representando a histórica Questão Coimbrã que encerrou o Romantismo.

O Romantismo no Brasil: Identidade e Cultura

No Brasil, o cenário era de construção após a recente Independência em 1822. O país precisava desesperadamente criar uma identidade própria, separada das raízes de seus colonizadores. Com início formal em 1836, o Romantismo literário brasileiro também se estruturou em três fases distintas.

Primeira Fase: O Indianismo Nacionalista

A primeira fase buscou a criação de um herói genuinamente nacional. O indígena foi o escolhido para representar a pureza e a força do país. Autores como Gonçalves Dias valorizaram enormemente as belezas e paisagens naturais brasileiras em suas poesias, evocando um nativismo profundo.

Na prosa, José de Alencar destacou-se com obras imortais como O Guarani e Iracema. Contudo, estudiosos apontam que esse indígena literário foi altamente idealizado e moldado aos padrões burgueses da Europa. Em Iracema, a virgem indígena submete-se completamente à vontade do europeu Martim, enquanto o guerreiro Poti abandona seu povo, sua religião e seu nome para ser batizado e aceito pelo homem branco, simbolizando uma anulação cultural. Além disso, nota-se a omissão proposital da figura do povo negro na formação heroica nacional, uma vez que a classe escravocrata da época usava teorias raciais para justificar a exploração econômica, preferindo não colocar a população negra no papel de herói.

Segunda Fase: O Mal do Século e o Byronismo

A segunda geração brasileira, o Ultrarromantismo, foi tomada por uma onda de pessimismo extremo, solidão e morbidez. Ficou conhecida como "Mal do Século" ou geração Byroniana, em homenagem à vida boêmia e aos excessos do famoso poeta inglês Lord Byron. O autor alemão Goethe também teve grande peso nessa atmosfera com sua obra Os Sofrimentos do Jovem Werther, que relatava um amor não correspondido culminando em suicídio, provocando uma epidemia de atos semelhantes entre os jovens da época.

No Brasil, os poetas adotaram esse estilo de vida desregrado, fugindo da realidade cruel pelo viés da melancolia e pelo constante desejo da morte como alívio para os amores platônicos e impossíveis. O "Mal do Século" também tinha um rosto clínico real: a tuberculose. A epidemia da doença devastou a juventude literária. Nomes brilhantes como Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Junqueira Freire morreram vitimados pela tuberculose logo no início dos seus vinte anos. Álvares de Azevedo, considerado um prodígio literário, deixou uma obra riquíssima e intensa, prevendo o seu próprio fim prematuro em versos inesquecíveis.

Terceira Fase: O Condoreirismo e a Voz Social

O Brasil amadureceu literariamente em sua terceira fase, também chamada de Condoreira ou Hugoana. O nome deriva do condor, pássaro que voa nas maiores altitudes dos Andes, usado como símbolo de liberdade e visão ampla sobre os problemas da sociedade.

Poetas passaram a usar a literatura como uma espada afiada contra as injustiças, denunciando abertamente a escravidão e defendendo a República e o Abolicionismo. Castro Alves tornou-se o maior expoente dessa geração. Conhecido como o "Poeta dos Escravos", ele conseguiu sentir as dores da população negra, transferindo para a sua poesia declamatória, dramática e retórica, o grito silencioso das vítimas do sistema escravocrata.

A Forte Relação Literária entre Brasil e Portugal

Apesar da busca por uma identidade própria, o Brasil literário manteve diálogos profundos com os autores europeus. Escritores lusitanos como Almeida Garrett eram leitores assíduos de poemas nativistas brasileiros do passado, e chegaram a usar poetas como Basílio da Gama como modelos da arte "verdadeiramente nacional e legítima americana", o que validou muito as buscas dos românticos no Brasil.

Curiosamente, na falta de uma autêntica Idade Média brasileira, poetas como Gonçalves Dias precisaram improvisar, criando belíssimas obras de estilo medieval. Ao projetar valores cavalheirescos medievais em seus heróis indígenas, ou ao escrever textos puramente passados no século XV como as Sextilhas de Frei Antão, Gonçalves Dias demonstrou a inegável força cultural que o imaginário lusitano medieval ainda exercia sobre a nova nação sul-americana.

O Que Resolvemos ao Estudar Esse Período?

Muitos buscam informações sobre o Romantismo para resolver dúvidas específicas exigidas em provas de colégio, vestibulares e no ENEM. Contudo, entender este tema resolve um problema muito maior: a compreensão da própria identidade cultural. Ao mergulharmos nas características das fases indianista, ultrarromântica e condoreira, conseguimos desvendar de onde viemos, como os mitos fundadores das nossas nações foram criados e por que algumas figuras históricas foram exaltadas enquanto outras foram ignoradas.

A literatura romântica em ambos os países foi o palco principal das disputas de narrativas sobre a liberdade, o amor, a justiça social e a própria essência do ser humano. Seja pelas crônicas emocionantes ou pelas batalhas retóricas como a Questão Coimbrã, o Romantismo cravou raízes tão profundas que ainda moldam a nossa maneira contemporânea de pensar, amar e protestar.

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